Você consegue lembrar das informações e, ao longo da vida, você vai acumulando conhecimento sem precisar “desaprender” tudo o que sabia para adicionar uma nova memória. Mas será que os Sistemas de Aprendizado de Máquina (Machine Learning) funcionam da mesma forma? A resposta curta é: depende. Na verdade, existem dois jeitos principais de ensinar uma máquina, e eles são tão diferentes quanto estudar para uma prova final e aprender um novo jogo de celular. Esses dois métodos se chamam Aprendizado por Lote (Batch Learning) e Aprendizado Online (Online Learning).
Aprendizado por Lote
É o método mais tradicional. Imagine que você é um professor e precisa ensinar um robô a diferenciar fotos de gatos e cachorros. Nesse modelo por lote, você juntaria um caminhão de fotos — milhões delas — e alimentaria o robô com todas de uma só vez. Isso funcionaria como um “curso intensivo”. O robô passaria dias (ou semanas) processando essas imagens, ajustando seus neurônios artificiais até se tornar um especialista em distinguir os bichinhos. Quando o treinamento termina, esse modelo já pode começar a trabalhar.
No entanto, aqui surge o grande problema: e se, daqui a um ano, aparecer uma nova raça de cachorro que ele nunca viu? Ou se as câmeras mudarem e as fotos tiverem uma qualidade diferente? No modelo por lote, o robô não consegue aprender isso sozinho. Ele continua “achando” que o mundo é igual ao de 2023. Portanto, para atualizá-lo, você precisaria juntar um novo lote de fotos (as antigas junto com as novas), parar o robô que está em funcionamento, treinar tudo do zero (o que consome muita energia e tempo) e, por fim, substituir o modelo antigo pelo novo. Sem dúvida, esse processo se mostra caro e demorado, como se você tivesse que refazer o curso inteiro sempre que aparecesse uma informação nova.
Aprendizado Online (ou Incremental)
É um método muito mais dinâmico e fascinante. Voltando ao exemplo do robô que identifica animais, no modelo online ele começa com um conhecimento básico, talvez até meio limitado. Contudo, em vez de receber um caminhão de dados de uma vez, ele recebe as informações em pequenos lotes, ou até mesmo uma por uma. E aqui está o segredo: ele aprende, descarta aqueles dados (ou os arquiva) e segue em frente, mantendo o conhecimento sempre atualizado.
Dessa forma, o modelo aprende de forma incremental, ou seja, em tempo real. Se hoje aparecer uma foto de uma raça nova de cachorro, o sistema não precisa parar. Ele analisa aquele dado, ajusta seu entendimento ali na hora e já incorpora esse novo conhecimento. Isso funciona exatamente como quando você baixa um aplicativo novo no celular: você não precisa formatar o celular inteiro para instalar um app; você simplesmente adiciona mais uma coisinha.
Exemplos práticos para ficar mais claro:
Batch (por ciclo): Pense no sistema de recomendações da Netflix, que passa por treinamento uma vez por mês. Durante o mês, ele utiliza os dados antigos. Quando chega o fim do mês, a equipe de engenharia treina um novo modelo com todos os dados do período (os antigos acrescidos dos novos) e substitui o antigo por essa versão atualizada.
Online (incremental): Pense no seu email e no filtro de spam. Diariamente, surgem centenas de novos golpes e spams. Por isso, o sistema de detecção de spam precisa aprender instantaneamente que um novo tipo de mensagem representa perigo. Se ele adotasse o modelo por lote, você receberia spam por um mês inteiro até a próxima atualização. Com o aprendizado online, por outro lado, o modelo aprende “ali na hora” que aquilo é lixo e já começa a proteger você imediatamente.
Conclusão
Ambos os métodos permanecem válidos, e a escolha entre um sistema Batch (por ciclo) ou Online (incremental) depende diretamente do seu problema. Se você deseja criar um sistema estável que analisa dados de um ano inteiro (como um censo populacional), o Batch se apresenta como seu aliado. Porém, se você precisa de um sistema que se adapta rapidamente às mudanças do mundo, como um carro autônomo que precisa aprender a dirigir em uma rua nova, o aprendizado incremental surge como a escolha certa. Felizmente, a Inteligência Artificial caminha cada vez mais para imitar a gente: aprender para sempre, sem nunca precisar parar.